Mais uma etapa desta aventura
Quando, há um ano, me falavam em criar um blogue ou em fazer workshops da Dona Quinoa, a minha resposta era um sorridente e grato “Não! Isto é só uma brincadeira!”. O facto é que a brincadeira se tem tornado bastante séria: tantos incentivos à criação do blogue e dois workshops “Alimentar as Emoções” com lotação esgotada começaram a dar que pensar. Ponderei muito antes de dar este passo, por várias razões:
Em primeiro lugar porque receio não ter tempo e disponibilidade para o alimentar, uma vez que tenho o meu trabalho e a minha vida pessoal, tal como cada um de vocês. De certa forma, este projeto faz parte de uma decisão de slow living, que encaro como um hobby e como parte do meu ritual de bem-estar e relaxamento. Mas ao juntar duas das minhas paixões- a psicologia e a culinária, e uma pitada de vício em estudar, acabei por fazer a tal relação entre a alimentação e a saúde mental, o que implica muito trabalho e investimento.
Não pretendo criar mais um blogue de receitas, afinal há muitas pessoas a fazer isso bem melhor do que eu, pessoas em que me inspiro tantas vezes nas experiências culinárias que faço e partilho. Quero, sim, poder acrescentar algo novo em cada publicação e isso requer uma dedicação que tem de ser conciliável com a minha ambição de slow living. Não quero, de forma alguma, que a Dona Quinoa se torne um peso ou uma obrigação, pelo que só existirá enquanto for bom para mim e para quem me acompanhar nesta aventura! Espero que este ritual de amor-próprio e pesquisa seja uma semente de amor e de curiosidade que deposito também em vocês.
Em segundo lugar, também hesitei porque fico um pouco assustada com o mundo dos blogues, não só pelo tempo que hoje em dia passamos online, mas principalmente pela rapidez com que se passa de bestial a besta. Preocupa-me a vertente “bestial”, em que o leitor imagina que quem escreve é perfeito, sem defeitos, fragilidades ou problemas, e com resposta e receita para tudo. Assusta-me também a parte da “besta”, em que tantas vezes os seguidores exigem o impossível ou descarregam a “fúria online”, tema sobre o qual escrevi recentemente na minha página de psicologia (e que podem ler AQUI). Esta separação entre o site profissional de psicologia e o blogue da Dona Quinoa constitui um terceiro fator que me fez hesitar tanto até decidir criar este blogue.
Como tenho partilhado nos workshops, durante algum tempo achei, ingenuamente, que conseguiria separar a Dona Quinoa da psicóloga Alexandra Barros, principalmente pela reserva e pelo anonimato que habitualmente se impõe nesta profissão. Não é habitual um psicólogo estar nas redes a falar dos seus problemas de saúde ou a partilhar os seus hábitos alimentares ou experiências de bem-estar. No entanto, ao dedicar-me ao impacto da alimentação na saúde mental, foi impossível manter esta separação. Aliás, apesar dos meus receios ligados a esta reserva pela qual sempre zelei, a junção dos meus conhecimentos profissionais às minhas partilhas pessoais parece ter contribuído para transmitir esta mensagem de que somos todos iguais, com forças e fragilidades, e sem vidas perfeitas e mágicas, e isso trouxe um ganho impagável que é a proximidade e as confidências que me têm feito.
“A saúde mental não é sexy”, li num artigo há uns meses, havendo ainda muito preconceito, muito tabu e muita vergonha em torno do tema. Tenho assistido a uma grande diferença entre a reação às minhas publicações profissionais e a resposta às da Dona Quinoa, havendo muito mais interação nos posts da Dona Quinoa, apesar do site e do Facebook profissionais existirem há muito mais tempo. Não será por acaso que, numa sondagem que fiz no instagram, as pessoas me pediram para falar mais sobre a relação entre os alimentos e a saúde mental, mas sugeriram que o fizesse num blogue da Dona Quinoa e não no meu site profissional.
De facto, a Dona Quinoa parece encorajar as partilhas de pessoas angustiadas com a sua relação com a comida de uma forma que parece ser dificultada pela seriedade, formalidade e, eventualmente, maior distanciamento que a página profissional pode transmitir. E sentir que a Dona Quinoa abre espaço a esta aproximação e a estes sentidos pedidos de orientação tem sido um dos aspetos mais gratificantes desta brincadeira que, entretanto, se tornou séria. E este é, provavelmente, o fator que mais pesou na decisão de avançar com o blogue. Por isso, este blogue acabadinho de sair do forno é principalmente o meu agradecimento a cada um de vocês.
