Dona Quinoa

Em março de 2017, incentivada por alguns amigos, criei a página da Dona Quinoa no Facebook, onde fui partilhando as minhas experiências de culinária saudável e os meus resultados ao nível do bem-estar, numa altura em que comecei a tentar adotar uma atitude de slow living e de zero waste, temas sobre os quais falarei noutras oportunidades.
Confesso que achei que o interesse pela página se iria resumir a uma dezena de amigos e que rapidamente iria esmorecer. Nunca pensei que ganharia a dimensão e o impacto que tem hoje, entretanto alavancado pelo instagram. Nunca ambicionei ter um blogue de receitas e esta página era essencialmente para partilhar as mudanças que fiz a nível alimentar e o impacto que tiveram ao nível do meu bem-estar, não só físico, mas também intelectual e emocional. Mas, afinal, que mudanças foram essas?
Durante algum tempo achei que tinha uma alimentação saudável porque, devido a uma gastrite crónica, fui eliminando vários alimentos e tipos de confeção da minha rotina. Comia pouca carne e privilegiava peixe, saladas e grelhados, embora recorresse a muitos “alimentos” embalados e pré-confecionados e tivesse fases em que só me apetecia comer coisas pouco saudáveis, o que habitualmente resultava em crises que me faziam perder peso.
Nunca tive muita tendência para engordar, mas a partir de 2015 comecei a emagrecer mesmo sem crises, chegando a pesar menos de 50 kg, o que começou a preocupar familiares e amigos. Como acreditava que este peso era um mal necessário, resultante de hábitos alimentares que me permitiam manter as crises controladas, e o meu gastroenterologista não considerava ainda haver motivo para alarme, mantive a minha dieta. Porém, para além da perda de peso, comecei a ficar frequentemente doente, com maior ou menor gravidade, mas sempre a necessitar de ir a consultas de várias especialidades, a fazer exames e a tomar medicação. A determinada altura, comecei a sentir bastante fadiga, irritabilidade, oscilações do humor, insónias, falta de energia, dificuldades de concentração e de memória, bem como uma grande quebra de motivação e produtividade. Alguém mais se identifica com estes sintomas?
Pois bem, como psicóloga, tendia a considerar que quase todo o meu mal físico era psicossomático, consequência de stress e/ou situações mal “digeridas”. Além disso, como o meu trabalho é muito exigente do ponto de vista intelectual e emocional, e sempre investi muito na minha formação e prática, achei simplesmente que estava a trabalhar demais. No início de 2017, depois de dois anos constantemente doente, achei que era altura de fazer mudanças na minha vida e disse a mim própria “chega de médicos e medicamentos”. Senti que tinha de procurar uma forma de fortalecer o meu sistema imunitário e comecei a ler mais sobre alimentação e a experimentar receitas realmente saudáveis. Comecei igualmente a investir em alimentos biológicos e em alguns superalimentos, ao mesmo tempo que, de modo natural, surgia a inspiração “desperdício zero”. Estava, de certa forma, empenhada em apostar na sustentabilidade do corpo, da mente e do ambiente.
Com as experiências que fui fazendo, a paixão pela cozinha voltou, assim como o apetite! Rapidamente recuperei peso (essencialmente massa magra, sem grande aumento de volume), mas também o bem-estar e a energia. Foi então que percebi que a alimentação que antes considerava saudável estava a causar-me défices nutricionais, que não se refletiam apenas no meu sistema imunitário, mas também no meu bem-estar emocional e no meu rendimento intelectual.
Esta constatação levou-me a querer investigar mais sobre o assunto e, desde então, tenho-me dedicado à partilha das minhas experiências culinárias, mas essencialmente tentado transmitir o que tenho aprendido a propósito do impacto da alimentação na saúde mental.
Reparei que se falava muito pouco do modo como a alimentação pode afetar o bem-estar emocional e intelectual, sendo muito mais habitual falar-se do inverso, ou seja, de como as questões emocionais interferem na forma como comemos e no que comemos (como é o caso das compulsões alimentares). E esse tem sido o meu desafio: explorar quais os alimentos e hábitos alimentares que podem ajudar a melhorar o humor e a potenciar o rendimento intelectual, quais tendem a causar mais ansiedade ou problemas de concentração, por exemplo, para além dos que aumentam o risco de perturbações mentais ou de doenças degenerativas.
Teria muito mais a dizer sobre a origem e o percurso da Dona Quinoa, mas a apresentação já vai longa, por isso fiquem atentos às próximas partilhas no blogue!
Mas antes de terminar, devo relembrar e salientar que não sou nutricionista. As partilhas que aqui farei baseiam-se exclusivamente em pesquisa pessoal, nas experiências e descobertas que tenho feito e no aconselhamento de outros profissionais, direcionado às minhas necessidades. Hoje existe muita informação disponível e nem sempre é a mais correta, não querendo eu contribuir para essa pseudoinformação. Procuro sempre informar-me sobre o que partilho e desenvolvo, mas não pretendo ter a ousadia de afirmar que ingredientes ou quantidades são realmente saudáveis ou recomendáveis. Este é um blogue de partilha pessoal que não pode nem pretende substituir a informação e o aconselhamento de profissionais da área da Nutrição e da Dietética.
“A carne de uns é o veneno de outros”, diz um provérbio antigo. O que é bom para mim, pode não ser para vocês!
